Entrevistas

Entrevista com o Guitarrista Fábio Santini

Publicado em Dicas, Entrevistas 10 de maio de 2013 por

Por Alice Nascimento - Jornalista

Fábio Santini1 – Com a sua experiência de mais de 20 anos de carreira como músico acompanhante, que diferenças você nota no mercado do tempo em que você começou para os dias de hoje?
De fato, o mundo mudou muito, a globalização, a advento da internet, o acesso facilitado a informação, a aquisição facilitada de mídias de uma forma geral, a pirataria, enfim, acredito que a internet trouxe uma nova atmosfera ao mundo e ao comportamento das pessoas. O mercado musical sofreu com essas mudanças ao longo desses vinte anos.

Há mais ou menos vinte anos, quando estava começando o mercado se comportava de uma maneira bem específica. A produção musical era bem mas intensa, jingles, produção de discos, espetáculos musicais, shows, enfim, o músico conseguia seu “ganha pão” trabalhando somente nesse segmento, gravando e acompanhando artistas.

Hoje o músico tem que ser versátil, e desempenhar varias funções pra sobreviver. O mesmo acontecia com aulas de música. Acredito que a procura por professores era bem maior nessa época. Não se tinha acesso às informações como temos hoje. Quando conseguíamos um método importado ou uma video aula de algum guitarrista estrangeiro, aquilo valia ouro.

Saudosismo a parte, mas isso não acontece hoje em dia. É só ligar o computador, seu tablet, ou celular e você tem disponível um universo inteiro de informações, video aulas, transcrições de músicas famosas, transcrições de solos de guitarristas famosos, cursos on line e etc… Essa facilidade de acesso interferiu na estrutura do mercado musical de uma forma irreversível. O que acontece é que o musico também tem que acompanhar as mudanças, se adequar, se aperfeiçoar, desenvolve novas habilidades e etc…

2 – Você também é produtor, arranjador e professor. Esse é um exemplo do músico dos tempos atuais: uma pessoa que exerce muitas funções… esse é o caminho para viver da música?
Acredito que sim. Cada vez mais o músico tem que desempenhar diferentes funções pra se estabelecer e se manter no mercado, o que não é fácil. Quanto mais habilidades se desenvolve e conhecimento se adquire, melhor. Hoje desempenho várias funções dentro do universo musical, o que reconheço me dá um certo prazer porque sempre gostei da diversidade.

Além de guitarrista, produtor, arranjador e professor, também escrevo métodos de guitarra, trabalho com transcrições, inclusive estou atualmente transcrevendo músicas da dupla Sá e Guarabyra pra compor um Song Book que será lançado pela Editora Vitalle.

Além disso também sou compositor e estou trabalhando no meu primeiro disco solo. Enfim, o músico que tiver mais habilidades estará melhor preparado pra enfrentar a concorrência no mercado e se estabelecer como profissional.

Acho também fundamental que hoje em dia o músico busque por uma formação acadêmica. Tive uma experiência muito enriquecedora na universidade de música, e aplico o conhecimento adquirido no meu dia a dia como músico até hoje.

3 – Que conhecimentos, além do próprio instrumento, você aconselha que o músico busque para exercer essas diferentes funções?
Acho que o músico tem que conhecer o básico de computação, dominar os softwares musicais, de gravação e transcrição pra poder desenvolver outros tipos de trabalho além de tocar a dar aulas de música.

Além disso tem que desenvolver conhecimentos de acústica, noções gerais de arranjo e produção, desenvolver sua percepção, capacidade de escrita e leitura musical.
Acredito que o desenvolvimento pessoal e profissional caminha juntamente com a capacidade de se adequar, modificar, de adquirir novas habilidades, com a aquisição de cultura e conhecimento, tudo isso fundamentado no prazer e amor pela vida e pela profissão.

4 – Conhecer ao menos o básico de outros instrumentos, além da guitarra, é uma boa dica também? Pq?
Sim, sem dúvida, principalmente quando se trabalha como arranjador e produtor. De uma forma mais sutil esse conhecimento também interfere na sua maneira de tocar e na maneira com que você reage e interage com a música e com os músicos que tocam com você.

5 – Atualmente, você toca com Sá & Guarabyra e com a Fabiana Bach, certo? Me fale um pouco do seu trabalho com cada um deles.
Me considero uma pessoa de sorte, porque sempre me envolvi com pessoas maravilhosas como artistas e como seres humanos.Todos os trabalhos em que me envolvi foram muito prazerosos e me proporcionaram muito aprendizado e conhecimento.

Toco com Sá e Guarabyra há mais ou menos cinco anos e me considero um afortunado por isso. Fizemos shows pelo Brasil inteiro, gravei o último disco, quando o Zé Rodrix ainda era vivo, o disco Amanhã. Tocar com eles é pra mim um imenso prazer porque antes de tocar com eles eu já era fã do trabalho. Já ouvia suas músicas e me deliciava com as
composições maravilhosas. Agora posso dividir o palco com esses artistas extremamente talentosos e generosos. Isso é pra mim uma grande realização e um grande prazer.

Além de tudo o ambiente de trabalho é muito bom. Toco com amigos que fazem parte da banda, Christiano Rocha, baterista de extremo talento e meu amigo há vários anos. Também na mesma banda, toco com Constant Papineau, tecladista, que já tocou com a dupla nos anos 70, um tecladista muito talentoso e um incrível ser humano, além do
baixista Pedro Baldanza, monstro do baixo que já acompanhou artistas de peso da música brasileira, só pra citar alguns, Elis Regina, Ney Matogrosso, Gal Costa, entre outros.

Não posso deixar de citar o produtor e empresário da banda, Chico Calabro, que foi o responsável por eu ter entrado na banda. Chico Calabro é de longe o melhor produtor com eu quem já trabalhei, e quero aqui ressaltar a importância do trabalho desse tipo de profissional. O Chico Calabro é um produtor que desempenha seu trabalho com extrema maestria e habilidade, sempre prezando pelo bem estar dos músicos, o que infelizmente é raro por parte dos produtores em geral no meio musical.

Há algumas semanas comecei a tocar com uma cantora muito talentosa, Fabiana Bach. É um imenso prazer poder fazer parte deste trabalho. É um trabalho de MPB muito requintado, composto por músicos que são meus amigos e profissionais muito talentosos, Claudio Machado no baixo, Vlad Rocha na bateria, Jonas Dantas nos teclados e Luciano
Khatib, percussão. O trabalho ainda está no início, ainda estamos ensaiando, preparando o repertório do show que deve estrear em breve e que tenho certeza, dará bons frutos.

6 – Me fale um pouco também sobre a rotina do sideman… as viagens, ensaios… como é a vida?
A rotina de trabalho do side man é um pouco cansativa e muito corrida. Chegamos na cidade onde se realizará o show, depois de uma viagem geralmente cansativa, já com o horário apertado pra passagem de som, que é sempre demorada, complicada e geralmente frustrante (rs), porque raramente conseguimos atingir um padrão de qualidade de som que gostaríamos. Apesar de tudo isso, acontece, na hora do show, uma mágica inexplicável e tudo dá certo.

Todo o cansaço vai embora e uma energia mágica toma conta de você durante o show inteiro.

O ensaio é parte do trabalho onde o músico desenvolve e solidifica a sua performance o que é essencial para que se tenha segurança na hora do show. Quando o artista te dá a liberdade pra criar e interferir na criação da música no que diz respeito à forma, o arranjo e etc, o ensaio se torna um trabalho muito agradável.

7 – Normalmente os músicos que você acompanha e já acompanhou te deram (ou dão) que espaço para você colocar a sua identidade no trabalho deles? (tanto nos shows quanto nas gravações). O que eles ganham com o seu trabalho?
Normalmente sim. É importante que o músico ache o ponto ideal, o equilíbrio entre o seu ego, a vontade de satisfazer a si próprio, e o desempenho que obrigatoriamente deve servir à música que executa. Quando se atinge esse equilíbrio a música cresce e aflora enquanto manifestação genuinamente artistica. Alias acho que o grande instrumentista não deve colocar seu ego acima da música. Acho o equilíbrio o ponto de sabedoria.

8 – Palco e estúdio é diferente, certo? No palco, dá para tocar de forma mais livre? Dá para colocar um pouco mais de você?
Sim, são trabalhos bem diferentes. De fato no palco você fica mais livre e tem aquela energia mágica qua já mencionei. Mas o trabalho em estúdio não é menos empolgante. É um trabalho desafiador que testa seus limites, é sempre uma corrida contra o relógio.

No estúdio você tem que ser rápido e resolver a questão. Tem que ter um “feeling” pra entender rapidamente o que o produtor deseja e colocar sua emoção na execução com uma precisão que é muito mais necessária e aguçada do que no palco. No estúdio você toca com uma certa pressão porque você deve errar o menos possível. É importante que o músico saiba lhe dar com essa pressão e que transforme essa emoção em algo positivo para a sua performance.

9 – Para quem quer desenvolver um trabalho próprio como instrumentista, ser sideman ajuda a ganhar conhecimento e credibilidade no mercado? É um bom caminho?
Sem duvida ajuda, mas não é o único caminho. Conheço guitarristas que fundamentaram sua carreira no trabalho autoral, no trabalho próprio e se deram muito bem. Não existe propriamente um caminho. A credibilidade vem com o tempo e só acontece quando o músico acredita no seu trabalho, na sua capacidade e se dedica ao seu aperfeiçoamento sempre, sem descanso.

10 – Você tem trabalho autoral?
Tenho algumas composições que farão parte do meu primeiro disco solo, que acredito, devo começar a produzir ainda neste ano, quem sabe ainda no primeiro semestre.

11 – Como entrar no mercado? Que dicas você daria para o músico chegar a tocar com grandes nomes?
Eu diria que existe uma questão fundamental no que diz respeito ao ingresso no mercado de trabalho, não só musical, mas no mercado de uma forma geral. Para ingressar no mercado e se estabelecer nele é preciso antes de mais nada ser competente, e competência se adquire com esforço, dedicação, muito estudo e paciência, porque tudo isso leva tempo. O mercado musical tem uma peculiaridade que o difere dos outros.

Geralmente os trabalhos são conquistados por intermédio de alguém, uma indicação. E nesse caso mais, do que nunca, a competência é fundamental, porque alguém só te indicará se tiver certeza absoluta que você dará conta do recado, porque o nome de quem indica também está em jogo, o nome do indicador está de certa forma relacionado ao
sucesso ou não do indicado.

O lado bom de tudo isso é que quanto mais competente, mais indicações surgirão, portanto tenha como meta ser bom, o melhor que você puder. Além do mais, é importante que se tenha um bom relacionamento, baseado na ética e no respeito, com seus colegas de trabalho.

12 – Que outras dicas você daria para quem quer seguir a profissão?
Estude muito, ame a música e a sua profissão e todas as coisa boas virão naturalmente com o tempo.

BIO – Fábio Santini
Músico profissional desde 1989, Fabio Santini é professor de música, guitarrista, produtor e arranjador.  Atualmente é professor de guitarra no IG&T, professor de guitarra e coordenador da Escola de Música Voice. Autor do método “Guitarra Fusion” editado pela EMT e do Song book de Sá e Guarabyra, ainda em fase de edição pela editora Vitale, Fabio Santini também atua como guitarrista no cenário musical já tendo acompanhado artistas como Oswaldinho do Acordeon, Elba Ramalho, Laura Finocchiaro,Celinha (Fat Family), Sivuca, Fernanda Porto, Celso Pixinga, Mozart Mello entre outros. Atualmente é guitarrista da banda de  Sá & Guarabyra.

 www.fabiosantini.com.br

 

Entrevista com o guitarrista Fernando Noronha

Publicado em Entrevistas 28 de setembro de 2012 por

Pessoal, o post de hoje é muito especial! Batemos um papo com o grande guitarrista Fernando Noronha. Acompanho o trabalho dele desde 1999, onde conheci o cd Heartfull of Blues. Uma obra prima do Blues nacional, indispensável na coleção dos amantes da música.

Fernando Noronha


Veja a entrevista:

Primeiramente, obrigado por nos conceder esta entrevista! Seu trabalho é motivo de inspiração para nós guitarristas!

Guitar Blog - Conte sobre seu começo. Com quantos anos começou a tocar? A guitarra foi seu primeiro instrumento?
Fernando Noronha - Aos 6 anos tive 3 meses de aula de violão. Aí parei e só voltei aos 14. Bem de leve, de brincadeira. Fui me fissurando e dos 18 em diante não consegui mais largar. Minha primeira guitarra era emprestada de um amigo. Eu tinha 17 anos.

Guitar Blog - Qual a sua maior influência? Quem são seus ídolos?
Fernando Noronha - Minhas maiores influencias são Jimi Hendrix, Albert King, Freddy King, SRV, Rory Galhagher, Jhonny Winter, Wishbone Ash, Lynyrd Skynyrd, Allman Brothers entre muitas outras bandas dos anos 60 e 70.

Guitar Blog - Seu primeiro cd, Swamp Blues, foi lançado em 1997. De lá pra cá foram 7 trabalhos magníficos, turnês internacionais e uma coleção de fãs. Quais são seus planos para 2013?
Fernando Noronha - Estamos trabalhando em nosso próximo álbum. Acho que começaremos a gravar em janeiro. Temos 22 músicas originais, mas vamos escolher umas 14. Também estamos trabalhando em nossa turnê européia e eu devo fazer alguns shows nos USA, uma vez que teremos nosso cd Meet yourself, lançado por uma gravadora texana, Top Cat Records. Também devo viajar por cidades brasileiras fazendo workshops para divulgar as cordas Nig 011, que eu estou assinando.

Guitar Blog - Ouvindo seus cds, conseguimos ouvir um timbre matador nas Stratos. Conte pra gente qual o segredo? Qual o seu setup atual?
Fernando Noronha - Olha o timbre é uma coisa muito pessoal e acredito que ele vem em grande parte dos dedos e da maneira como se ataca a corda. Eu uso a minha strato antiga, com um super reverb também antigo. Uso alguns pedais da NIG, como o Hot Drive e o Phaser. Além do Rat antigo e um Texas Ranger.

Guitar Blog - Como você vê o atual cenário musical brasileiro? Acredita que outros talentos como o seu possam surgir em meio a industrialização da música?
Fernando Noronha - Claro! O Brasil está repleto de talentos em todos os estilos musicais. Por mais volátil que esteja o mercado, talentos verdadeiros sempre aparecem.

Guitar Blog - Pra finalizar, quais dicas você deixa para os guitarristas leitores do Guitar Blog?
Fernando Noronha - Sigam seus sonhos, mesmo que pareçam impossíveis!!

Acesse o site do Fernando Noronha! Ele disponibilizou algumas músicas de seus CDs para download. www.fernandonoronha.com
Até a próxima!